Imagem: Adriano Abreu
23/03/2026 às 09:00

Natal vai dar mais fluidez ao trânsito com novos semáforos inteligentes

Quem dirige pelas ruas de Natal já deve ter se deparado com situações em que, mesmo com o sinal aberto, motoristas permanecem enfileirados, avançam sobre a área de interseção e acabam bloqueando o fluxo contrário. O resultado são retenções sucessivas e perda de tempo no trânsito. Um dos principais fatores é o modelo atual de semáforos com tempos fixos, que não acompanha a variação da demanda de veículos ao longo do dia. Esse cenário motivou a elaboração de um projeto que promete mudar a dinâmica do tráfego na capital potiguar: a implantação de semáforos inteligentes.

Natal foi contemplada pelo Governo Federal, dentro do Novo PAC – Mobilidade Urbana Sustentável, com um financiamento de R$ 30,5 milhões para a implantação desse modelo, voltado à modernização da rede e à melhoria da fluidez, sobretudo nos corredores de transporte público.

De acordo com a secretária de Mobilidade Urbana de Natal (STTU), Jódia Melo, a última grande modernização semafórica da cidade ocorreu em 2009, o que torna o sistema atual defasado diante da realidade do trânsito. “O nosso objetivo maior é dar fluidez, em especial ao transporte público, porque ele vai priorizar o transporte público quando fizer a adequação dos tempos”, explica.

A proposta já foi apresentada no Conselho Municipal de Transporte e Mobilidade Urbana (CMTMU) e prevê a modernização de todo o parque semafórico. Ao todo, 197 cruzamentos serão contemplados, sendo 138 com tecnologia adaptativa capaz de ajustar automaticamente o tempo dos sinais conforme o fluxo. Outros 59 estarão integrados à central de controle, permitindo ajustes remotos em tempo real.

Além disso, o projeto inclui 483 pontos de coleta de dados por videodetecção, que irão monitorar o volume de tráfego, e a instalação de 398 botoeiras sonoras para pedestres, ampliando a acessibilidade e a segurança nas travessias.

A expectativa da STTU é de impacto direto no tempo de deslocamento. “No horário de pico, a gente pode ter uma redução de cerca de 20% no tempo de viagem”, estima Jódia Melo.

De acordo com a secretária, os novos equipamentos terão câmeras e sensores capazes de “ler” o trânsito em tempo real e adaptar o funcionamento dos sinais automaticamente. “Hoje o tempo do semáforo é fixo, independentemente da quantidade de carros. Às vezes enche tanto que até o cruzamento fica bloqueado. O sinal inteligente vai conseguir perceber isso sozinho, sem você ter que reprogramar”, detalha.

A tecnologia permitirá ainda a criação de uma espécie de “onda verde”, liberando sequencialmente os sinais em vias com maior fluxo. Em situações específicas, como a aproximação de ambulâncias, o sistema poderá priorizar a passagem. “Ao observar a ambulância, ele vai ficar aberto até a ambulância passar. A gente consegue dar esse comando para o sistema que opera a inteligência do semáforo”, afirma a secretária.

Para quem enfrenta o trânsito diariamente, a falta de sincronização dos semáforos é um problema evidente. O motorista Isaías Morais relata desequilíbrio nos tempos dos sinais em vias importantes da cidade. “O principal é a questão de tempo. Tem locais que até têm um tempo proporcional, mas em outros demoram muito a abrir e fecham muito rápido em relação aos outros sentidos”, afirma. Para ele, a mudança pode trazer impacto direto: “Acredito que um semáforo inteligente resolveria isso sim.”

Já o motorista Thalys Ferreira chama atenção para pontos críticos, como acessos a pontes. “A questão do tempo no semáforo deveria ser específica de cada região. Nas pontes e acessos, qualquer incidente já congestiona, principalmente por causa de acidentes com motos”, relata.

Controle remoto

O secretário adjunto de Trânsito, Walter Pedro, destaca que a principal mudança será a forma de operação do sistema. Hoje, qualquer ajuste exige deslocamento de equipes até o local. “Hoje é manual. A gente precisa ir no semáforo para ajustar. Com o novo sistema, isso poderá ser feito da central, de um tablet ou celular”, explica. Ele acrescenta que a central semafórica integrada também permitirá respostas mais rápidas a ocorrências no trânsito. “Se houver uma retenção, a gente consegue ajustar remotamente para dar mais fluidez.”

Para os pedestres, o projeto prevê botoeiras inteligentes, com recursos de acessibilidade. “A botoeira vai conseguir identificar, por exemplo, uma pessoa com mobilidade reduzida e dar mais tempo para a travessia”, afirma.

Outro ponto é a instalação de sistemas de energia de reserva. “Teremos cruzamentos com nobreak, para que os sinais não parem em caso de falta de energia”, completa.

Segundo a Caixa Econômica Federal, responsável pela operação de crédito com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), o projeto já foi habilitado e selecionado pelo Ministério das Cidades e teve sua validação técnica concluída. “Atualmente, o projeto encontra-se na fase de tramitação para contratação da operação de crédito, que envolve as análises internas da Caixa e, paralelamente, o envio pelo município do Pedido de Verificação de Limites (PVL) à Secretaria do Tesouro Nacional, conforme previsto no Manual de Instrução de Pleitos daquela Secretaria”, informou a Caixa Econômica Federal.

Segundo o banco, o andamento do processo está dentro da normalidade, considerando-se tratar de uma operação de crédito com ente público, lastreada em recursos do FGTS. “A expectativa é de que a contratação seja concluída no primeiro quadrimestre de 2026. A liberação dos recursos ocorrerá de forma gradual, conforme o cronograma físico-financeiro e a execução do projeto”, esclareceu.

A secretária da STTU, Jódia Melo, afirma que, paralelamente à tramitação na Caixa, a Prefeitura já realizou o processo licitatório para contratação de uma empresa escolhida. “Ainda não assinamos contrato com a empresa vencedora porque só pode ocorrer após formalizar o convênio com a Caixa, para a secretaria e o fornecedor firmarem o contrato.”

Proposta também avança na Câmara Municipal

Paralelamente à iniciativa do Executivo, a modernização do sistema semafórico também vem sendo discutida no Legislativo. Um projeto de lei de autoria do vereador Léo Souza (União) propõe a criação da Política de Semaforia Inteligente em Natal, com diretrizes semelhantes às que já estão sendo implementadas pela Prefeitura.

O texto estabelece que o município deverá substituir gradualmente os controladores convencionais por equipamentos inteligentes, capazes de identificar o fluxo de veículos em tempo real, por meio de sensores como câmeras e laços indutivos. A proposta prevê que essa transição comece por eixos viários estratégicos, como as avenidas Engenheiro Roberto Freire, Hermes da Fonseca/Salgado Filho, Prudente de Morais, Tomaz Landim e a Ponte Newton Navarro, corredores que concentram grande volume de tráfego na capital.

Entre os mecanismos previstos está o chamado “modo autônomo”, no qual o próprio sistema ajusta os tempos de abertura e fechamento dos sinais de acordo com a demanda, evitando situações comuns no modelo atual, como motoristas parados em um sinal vermelho mesmo quando não há fluxo na via transversal.

Outro ponto central do projeto é a chamada “onda verde dinâmica”, que sincroniza semáforos em sequência para permitir que veículos trafeguem com maior fluidez em velocidades constantes, reduzindo paradas desnecessárias. A proposta também inclui a “prioridade seletiva”, que permite a abertura antecipada do sinal para ônibus em atraso e veículos de emergência, como ambulâncias, viaturas policiais e do Corpo de Bombeiros.

Na justificativa, o vereador argumenta que o sistema atual, baseado em tempos fixos, “não reflete a dinâmica imprevisível do trânsito moderno” e contribui para congestionamentos e desperdício de tempo. Ele também destaca impactos ambientais e econômicos, ao apontar que a redução do chamado efeito “anda e para” pode diminuir a emissão de poluentes e o consumo de combustível. Outro aspecto previsto é a integração dos dados coletados pelos sensores a plataformas digitais do município, como o aplicativo “Natal na Mão”, permitindo que a população acompanhe, em tempo real, estimativas de deslocamento com base nas condições do trânsito.

 

TN


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