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Hospital da Grande Natal registra surto de bactérias e oito mortes de pacientes

Um relatório do Hospital Regional Alfredo Mesquita Filho, em Macaíba, na Grande Natal, aponta a ocorrência de um surto de bactérias multirresistentes entre maio e julho deste ano. Nesse período, oito pacientes, que tiveram esses microrganismos identificados durante a internação, morreram na unidade.
Um documento pós-incidente foi elaborado, no último dia 11 de agosto, pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e pelo Núcleo de Segurança do Paciente (NSP) da unidade. No texto, o hospital classifica o caso como “surto de infecção relacionada à assistência à saúde por microrganismos multirresistentes”.
Segundo a Secretaria de Estado da Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap), porém, o documento não permite afirmar que as bactérias tenham sido a causa direta dos óbitos.
Ao todo, a planilha anexa ao relatório reúne 16 registros de infecção ou colonização por bactérias multirresistentes, envolvendo 15 pacientes. A diferença ocorre porque um dos pacientes aparece mais de uma vez na tabela, em datas diferentes de coleta.
🔎 Infecção ou colonização: qual a diferença? Segundo o infectologista Kleber Luz, colonização ocorre quando o microrganismo está presente no corpo, mas não provoca sinais ou sintomas. Já a infecção acontece quando a bactéria provoca alterações, como sintomas ou mudanças em exames.
Segundo o documento, quatro desses registros envolvem pacientes que chegaram ao hospital vindos de outras unidades de saúde já com identificação dessas bactérias. Os outros 12 foram associados, no relatório, à assistência prestada no próprio Hospital Alfredo Mesquita Filho.
Os primeiros casos foram identificados em pacientes transferidos de outras unidades em maio. Nos meses seguintes, novos registros passaram a ser identificados entre pacientes do próprio Alfredo Mesquita. De acordo com a investigação, a evolução foi “compatível com a ocorrência de transmissão cruzada”.
Em entrevista ao g1, a secretária adjunta de Saúde do RN, Leidiane Queiroz, afirmou que houve transmissão cruzada entre pacientes dentro da unidade. Ela fez, no entanto, uma ressalva sobre os óbitos.
“Tive o cuidado de perguntar à equipe do hospital, e a equipe não atestou que os óbitos foram pelas bactérias”, disse. Segundo ela, a presença dos microrganismos pode agravar o quadro de pacientes já fragilizados, mas isso não permite concluir, por si só, que tenha sido a causa das mortes.
A reportagem do g1 também fez contato diretora-geral do Hospital Regional Alfredo Mesquita Filho, Patrícia Emannuely. Ela informou que não irá se pronunciar sobre o caso e que a direção do hospital adota o posicionamento apresentado pela Sesap.
🔎 Foram identificadas três principais bactérias multirresistentes entre os pacientes relacionados ao surto: Acinetobacter baumannii, Pseudomonas aeruginosa e Klebsiella pneumoniae (veja abaixo a explicação do médico infectologista).
As causas
Além de descrever a cronologia dos casos, o relatório pós-incidente atribui o avanço do surto a uma combinação de fatores estruturais, operacionais e assistenciais.
Segundo o documento, as rondas feitas pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e pelo Núcleo de Segurança do Paciente (NSP) identificaram “severa fragilidade operacional e processual” nos setores afetados, inicialmente a UTI e, depois, a Clínica Médica.
Entre os problemas citados no relatório estão:
déficit crônico de recursos humanos;
ausência de leitos específicos para isolamento;
enfermarias com mobiliário danificado e compartilhado;
sobrecarga de trabalho;
falhas na sustentação das barreiras de isolamento;
dificuldades na comunicação entre equipes;
demora na visualização de exames e culturas;
problemas na rotina de limpeza terminal e na limpeza concorrente;
compartilhamento de materiais assistenciais entre pacientes;
resistência de parte dos profissionais à adesão completa aos protocolos de EPI;
circulação inadequada de acompanhantes entre diferentes leitos.
O documento também relata a presença de umidade e mofo em enfermarias, desconformidades em áreas de expurgo, escassez de alguns insumos e falhas na identificação e no manejo de dispositivos invasivos, como sondas e acessos.
A Sesap afirmou que adotou medidas para conter o episódio e que a situação é considerada controlada.
Cronologia dos casos
Um dos registros iniciais envolve uma paciente admitida em 10 de maio, vinda do Hospital Belarmina Monte, em São Gonçalo do Amarante, também na Grande Natal, com identificação de Pseudomonas aeruginosa.
Outro caso citado é o de uma paciente transferida do Hospital Lindolfo Gomes Vidal, na cidade de Santo Antônio, em 27 de maio, com Acinetobacter baumannii. O relatório também menciona um paciente vindo da UPA de Macaíba.
Depois desses casos iniciais, novos registros passaram a aparecer entre pacientes internados na própria unidade. Em documento interno anterior, a CCIH avaliou que o surgimento de novos casos indicava falha na contenção.
🗓️Maio: O hospital identifica os primeiros casos entre pacientes vindos de outras unidades de saúde já com identificação dessas bactérias
🗓️Junho: Relatório passa a registrar casos associados à assistência prestada no próprio Alfredo Mesquita, envolvendo diferentes bactérias multirresistentes.
🗓️Julho: A maior parte das coletas listadas no relatório se concentra em julho. Sete dos oito óbitos mencionados no documento ocorreram nesse mês, entre os dias 6 e 28.
Medidas adotadas
Diante do aumento dos casos, o hospital elaborou um plano de ação para interromper a transmissão. O objetivo geral estabelecido pela equipe foi conter o surto e zerar a incidência de novos casos de transmissão interna.
Entre as medidas descritas no relatório estão:
notificação do caso à Suvisa, Anvisa e outros órgãos;
restrição de transferências entre setores;
tentativa de evitar novas admissões em áreas afetadas até a contenção do quadro;
rastreamento diário de resultados laboratoriais;
sinalização de isolamento em prontuário;
reforço no abastecimento de EPIs e insumos para higiene das mãos;
intensificação da limpeza e desinfecção ambiental;
orientação a profissionais, pacientes e acompanhantes;
coorte de equipes para reduzir circulação entre áreas com e sem casos.
Situação atual
A Sesap considera que a situação está controlada. Segundo a secretária, dois pacientes relacionados ao episódio ainda estão internados.
Um deles estava na Clínica Médica e, segundo a secretaria, já não apresentava sinais de transmissão ou colonização e não estava mais em uso de antibióticos. O outro seguia na UTI, com tratamento prolongado por decisão do infectologista responsável.
“O paciente da UTI já fez o primeiro ciclo de antibioticoterapia e o infectologista que acompanha o caso prorrogou por mais tempo o antibiótico para garantir que a resposta seja ainda mais efetiva”, afirmou.
g1
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