O governador Cláudio Castro (PL) admitiu, nesta terça-feira (28/10), que o combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro superou a capacidade do Estado. A declaração foi dada horas após uma megaoperação conjunta das polícias Civil e Militar nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte da capital, que resultou na morte de 18 suspeitos e dois policiais civis, além de ao menos sete agentes feridos. As informações são do jornal O Globo.
O governador concordou com a avaliação feita pela porta-voz da Polícia Militar, que havia dito, na véspera, que a guerra entre facções criminosas já ultrapassa os limites de atuação das forças estaduais. Segundo Castro, o enfrentamento atual exige apoio federal, sobretudo no fornecimento de veículos blindados e suporte logístico das Forças Armadas — pedidos que, segundo ele, foram negados três vezes pela União.
“Essa operação de hoje tem muito pouco a ver com a Segurança Pública. É uma operação de Estado de Defesa. É uma guerra que está passando os limites de onde o Estado deveria estar sozinho defendendo. Para uma guerra dessa, que nada tem a ver com segurança urbana, deveríamos ter um apoio maior e até das Forças Armadas. (…) Não é só responsabilidade do Estado. O Rio está sozinho nessa guerra”, declarou Cláudio Castro.
O governador afirmou ainda que existe uma “política de não ceder” por parte do governo federal. “Já entendemos haver uma política de não ceder. Disseram que precisa de uma Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Depois disseram que poderiam emprestar e voltaram atrás porque o servidor que opera o veículo é federal e deveria ter a GLO, enquanto o presidente é contra a GLO. Entendemos que a realidade é essa e não vamos ficar chorando pelos cantos”, afirmou.
Apesar das críticas, Castro ressaltou que não pretende transformar o tema em embate político. “Precisamos de integração, não de disputa. É uma luta que extrapolou toda a ideia de Segurança Pública e está prevista na Constituição, quando se trata de armas que vêm do tráfico internacional”, disse.
Estado de alerta
Após a operação, o governador afirmou que o Rio de Janeiro está em estado de alerta por risco de retaliações de traficantes. “Estamos em estado de atenção e alerta para possíveis retaliações. A polícia está toda na rua e todos os batalhões estão em prontidão. Temos relatos de que tentaram fechar a Avenida Brasil e outras vias para desviar a atenção da operação”, informou Castro.
Segundo fontes da segurança pública, as forças estaduais estão mobilizadas para conter possíveis bloqueios e ataques em represália à ação policial.
Megaoperação contra o Comando Vermelho
A ação conjunta da Polícia Civil, Polícia Militar e do Gaeco/MPRJ teve como alvo principal o Comando Vermelho (CV), facção que, segundo as investigações, estaria em um movimento de expansão territorial e de recrutamento de criminosos de outros estados.
A operação, que começou nas primeiras horas da manhã, mobilizou cerca de 2,5 mil agentes, incluindo equipes táticas e aeronaves de apoio. O objetivo era cumprir dezenas de mandados de prisão contra traficantes identificados como líderes de bases operacionais dentro das comunidades. Ao todo, 56 pessoas foram presas, 31 fuzis apreendidos, além de granadas, pistolas e rádios comunicadores.
Entre os mortos, a polícia identificou dois suspeitos oriundos da Bahia, apontados como parte do braço interestadual do CV. De acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), o grupo vinha sendo monitorado há meses.
O Complexo da Penha e o Complexo do Alemão são considerados estratégicos para a facção, com conexões diretas para a Baixada Fluminense e as rotas de escoamento de drogas e armas para o interior do estado.
A Polícia Civil afirmou, em nota, que a ação foi planejada para “desmantelar o núcleo de liderança e logística da maior facção criminosa do estado”, e destacou que o volume de apreensões e prisões representa “um golpe significativo nas estruturas de poder do tráfico”.
Enquanto isso, o clima de tensão continua nas comunidades e em diferentes áreas da cidade. O governo estadual reforçou o policiamento em vias expressas, como a Avenida Brasil e a Linha Vermelha, e determinou a permanência de equipes em pontos estratégicos durante toda a semana.